entrevista à fundação iberê camargo

por Revista Lugares

Entrevista à Fundação Iberê Camargo, realizada em novembro de 2009.

Saber um pouco sobre o passado de Alice Shintani é questão quase essencial para compreender seu trabalho. Artista selecionada pela Bolsa Iberê Camargo 2009 (finalista), a paulistana foi montanhista, formou-se em Engenharia da Computação e trabalhou nos primeiros anos de implementação da Internet no Brasil antes de dedicar-se diretamente à arte. Esta trajetória faz com que sua produção seja mais recente, e venha chamando a atenção de críticos e curadores.

Em 2009, além da Bolsa, Alice foi selecionada pelo Programa Rumos Itaú Cultural e realizou a mostra Éter, na Galeria Virgílio, em São Paulo. Mas muito antes de qualquer exposição, Alice foi montanhista por cerca de 12 anos. “Tive contato com ambientes abertos, paisagens imersivas versus a nossa finitude, tonalidades de gelo, a neve, o silêncio, a morte de pessoas queridas, a mercantilização na montanha… De alguma maneira, acho que essa experiência influi nos desdobramentos do que faço hoje”, argumenta.

Neta de japoneses que imigraram para o Brasil no início do século passado, Alice busca em suas obras uma ideia de pausa, de criação de outro tempo e outro espaço – mesmo que efêmeros. “Há uma idéia japonesa sobre esse ‘lugar-entre’, um certo estado de suspensão, de indefinição, que eles chamam de ‘espaço Ma’. É um espaço não-afirmativo, não-assertivo, onde se pode suspender as certezas, não de um jeito relativista, mas para permitir algo potencial”, explica. Em sua obra, isto aparece por meio das tonalidades doces e quase apagadas, que se expandem das telas para espaços inteiros, tomando piso, paredes e até o teto. “Procuro pensar menos a pintura em si como objeto de pesquisa, e mais como um veículo sintonizado ao que quero propor: basicamente, criar situações que desacelerem o nosso olhar, e que convidem a refletir sobre esse olhar, sobre esse olhar (e se relacionar) no mundo”, afirma. Assim, sua pesquisa de cores diz respeito a esta concepção e se adapta à dimensão espacial e à quantidade de luz de cada lugar em que expõe: espaços mais amplos permitem tons mais saturados, enquanto ambientes menores exigem redução dos contrastes para reproduzir o mesmo tipo de sensação. “Uma questão cara ao meu trabalho é propor uma experiência que seja um tanto irreprodutível através das imagens, isto é, que a experiência de entrar em contato com o trabalho ao vivo ainda valha a pena, nesses nossos dias tão midiáticos”, pondera.

Nascida em 1971, quando pequena Alice fazia maquetes em papel e costurava bonecas – até ganhar seu primeiro computador, em 1985. “Ele tinha 64 kbytes de memória, eu o ligava na televisão e carregava os programas na base da fita cassete. Era um mundo cheio de possibilidades”, diverte-se a artista. Daí para a faculdade de Engenharia da Computação foi um pulo, do qual ela saiu em pleno turbilhão da chegada da Internet no país, em 1993. “Trabalhei nesses primeiros anos de desenvolvimento e de implantação da banda-larga. Era muito criativo, tínhamos que pensar tudo do zero: novos serviços, o que poderia ser trafegado, que tipo de conteúdo, etc.”, lembra. “Com o estouro da bolha do mercado de tecnologia, em 2000, e já por volta dos trinta anos de idade, comecei a me dar conta da realidade do mundo corporativo e suas regras. Entrei numa crise de valores, algo provavelmente comum nessa idade”, analisa. Deste período veio uma mudança: o envolvimento com a arte “mais strictu-sensu”.

Além de vários cursos, Alice teve sua produção orientada, por cerca de cinco anos, por Dudi Maia Rosa, e de 2003 a 2006, participou de alguns salões de arte. “Enviávamos portfólio para uns vinte, trinta editais até ser selecionados em um. Era uma coisa meio por teimosia até, mas, na época, eu não via outra maneira de mostrar, de fazer circular os meus trabalhos”, recorda. Em 2007, participou do programa de exposições do Centro Cultural São Paulo e da Temporada de Projetos do Paço das Artes. Por conta destas mostras, foi contatada por algumas galerias e acabou realizando sua primeira individual na Virgílio. Com liberdade para pensar sua exposição, ela optou por apresentar um novo projeto. “Daí surgiu a instalação Quimera, um trabalho mais imersivo, que desdobrava algumas questões que eu vinha trabalhando nas pinturas”, lembra. No ano seguinte, deu continuidade a estas pesquisas por meio da mostra Estado de Exceção: Venha Ver a Coréia, Ver Você, concebida pelo jornalista e escritor Marcelo Rezende e apresentada no Paço das Artes, em São Paulo. “Foi um trabalho bastante colaborativo, que originou a instalação Ramen e que me moveu para mais dois projetos: Estacionamento, no CCSP, e Dominó, no hall da USP de Ribeirão Preto”, conta a artista. Nesta cidade, aliás, fez sua segunda individual, apresentada na galeria Marcelo Guarnieri. Para fechar o ano, Alice participou da coletiva Nova Arte Nova, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro e, posteriormente, em São Paulo. Atualmente, está expondo no 63º Salão Paranaense, no MAC Paraná, em Curitiba. A mostra segue até março de 2010.

A partir do projeto apresentado na Bolsa Iberê Camargo, Alice busca desdobrar seu trabalho para além dos espaços institucionais de arte, colocando-o em contato também com outros públicos. “É uma vontade de tentar estabelecer outras conversas com as pessoas, com o mundo, de uma forma menos impositiva, mais horizontal e talvez mais invisível. Sei que essa é uma questão meio ingênua, já bastante surrada, datada na verdade, mas é uma vontade pessoal”, defende.

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